terça-feira, dezembro 29, 2009

RFFSA - Volume I - Capítulo 5

R.F.F.S.A. - Fases Administrativas
Fase I - de 1957 a 1969 (Coligadas)
Capitulo 5
A Identidade Visual Corporativa

A rigor, o surgimento da RFFSA nos primeiros movimentos de sua implantação não trouxe imediatas mudanças na rotina das ferrovias coligadas. Naturalmente, diante de um quadro de dimensões nacionais, os reflexos da nova ordem somente seriam notados mais adiante.

Conquanto constituída empresa, sua identidade se estabeleceu inicialmente fortemente associada à acrossemia ou sigla, unicamente na conformidade da gramática culta.

A sigla “R.F.F.S.A.” adotada nesta conformidade, seguida da pontuação intercalada, meramente resumia o nome “Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima”. A transformação, ou melhor, a associação da sigla para a denominação nominal da empresa por “RFFSA” (sem a pontuação), ou, desde o início comumente identificado somente por “Rede”, somente ganharia a devida forma nos anos 1980. Muito comum também a sigla resumida como “RFF” e a introdução da expressão “Refesa”, como resultado de uma onomatopéia da sigla “RFFSA”; muito utilizada no jargão paulista, conforme observa com propriedade o pesquisador e escritor ferroviário Ralph Menucci Giesbrecht e aplicada como denominação de fantasia na publicação impressa oficial da empresa, conforme citamos mais adiante, a chamada “Revista Refesa”.

Como “R.F.F.S.A.” a sigla passaria a estar presente em todos os elementos relativos ao universo da nova empresa, fosse a sua administração geral constituída ou junto às coligadas. E, aos poucos, apareceria na identidade visual do material rodante e de tração destas ferrovias, aliás, objeto e foco desta obra.

É interessante notar que a Rede entrava no cenário realmente apenas com a sua sigla, nada mais. Não era comum àquela época a preocupação que há pouco mais de 25 anos permeia as iniciativas relativas ao que se considera por identidade visual ou assinatura de imagem empresarial, pelo menos em maior expressão no Brasil.

A Rede, iniciava seus passos com os passos das suas coligadas e por alguns anos desde a implantação da nova ordem, as coligadas continuaram a exibir seus padrões de identificação e pintura independentes, assim como o ordenamento numérico e classificatório de seus equipamentos.

Entrementes, considera-se que além da sigla, um primeiro e possível movimento para demarcar uma identidade visual da nova empresa tenha surgido da escolha de um padrão de pintura que a representasse junto ao equipamento mais emblemático de qualquer estrada de ferro, que são as suas locomotivas.

Em pouco tempo a Rede apresentaria o seu novo padrão de pintura para as locomotivas em todo o Brasil. Este padrão seria mantido por mais de quatro décadas, embora sofrendo pequenas, mas, significativas variações.

Não se sabe ao certo, ou pelo menos, desconhece o autor (dada a atual precariedade de acesso aos arquivos da empresa que se encontra em extinção e inventariança dos bens), qual teria sido efetivamente o primeiro equipamento a receber a nova pintura, embora por dedução, seja possível que tenham sido as primeiras locomotivas adquiridas já pela Rede para as suas ferrovias coligadas e, dentre elas, os modelos GM EMD G8 e G12, desembarcaram no porto do Rio de Janeiro já exibindo o novo padrão e isto em 1958.

Uma sugestão repassada por pesquisadores ferroviários e amigos estudiosos do contexto ferroviário brasileiro, arrisca um palpite – sim, palpite por quanto da mesma forma não tenhamos infelizmente uma documentação comprobatória – de que o padrão original de pintura da Rede tenha sido proposta pessoalmente pelo engenheiro Renato Feio, seu primeiro presidente.

Antes de assumir a presidência da Rede, ele estava à frente da presidência da Estrada de Ferro Santos a Jundiaí, que recentemente havia optado por um novo padrão de pintura para as suas locomotivas diesel-elétricas.

Com um fundo em vermelho forte, a nova pintura exibia uma faixa fina lateral amarela, emoldurada com faixas pretas, correndo longitudinalmente pelo meio exato da carcaça, desfazendo-se em um “V” duplo nas testeiras. Ao centro da lateral a nova logomarca da Santos a Jundiaí na sigla “EFSJ”, estilizada em um losango de fundo amarelo, completava discretamente a pintura. Destaque para o espelho do limpa-trilhos, pintado em um zebrado fino em forma de “A”; este mesmo zebrado se repetia no barramento lateral do passadiço; truques pintados de preto, completavam a nova pintura.

Uma excelente pintura, mas, suficientemente trabalhosa.

Curiosamente, ao surgirem as primeiras pinturas da RFFSA, o padrão remetia imediatamente àquele que justamente o Engenheiro Feio havia deixado como herança de sua gestão na EFSJ.

A conclusão parece-nos óbvia. No exercício de sua autoridade e “gosto”, pode muito bem ter “levado” consigo a pintura da EFSJ em seu último padrão para representar o padrão de pintura da nova empresa nacional, não exatamente como uma cópia, mas como uma releitura extremamente próxima da fonte de inspiração, com grandes simplificações.

O fundo vermelho foi mantido, mas, as faixas perderam o contorno preto, mantidas em amarelo. No barramento lateral do passadiço, o amarelo entrou no lugar do zebrado e, no espelho do engate, o zebrado foi substituído pelo listrado na combinação amarelo – vermelho em “A”.

Qualquer semelhança pode ser mera coincidência, uma vez que não dispomos de meios formais para provar que efetivamente a pintura RFFSA adveio de uma releitura simplificada o último padrão vigente da EFSJ. Com as imagens que se seguem, deixamos o leitor à vontade para tirar as suas melhores conclusões.


A


Apesar da flagrante semelhança com o último padrão “puro” da EFSJ, percebe-se que talvez de forma mais pragmática do que necessariamente artística, buscava-se, naquele primeiro momento, demarcar os equipamentos ferroviários sob a nova ordem.

Evidentemente que a fixação da imagem da nova empresa de cunho nacional representava não menos a vaidade governamental de evidenciar os valores relacionados com o desenvolvimento e a pujança

As cores contribuíam com este fator de identidade – seria difícil ignorar a presença de uma locomotiva vermelha com faixas amarelas. Talvez à época uma discussão de gostos possa ter tomado alguma forma, afinal de contas, a nova pintura fugia do que até então havia se convencionado tradicionalmente...

Mas o mais interessante e que se seguiria nos anos vindouros e a ponto de inspirar um livro inteiro a respeito, não está substancialmente na pintura em si, mas, nos elementos que a acompanhavam: as inscrições de demarcação das ferrovias identificadas pela Rede.

Num exercício de claro pragmatismo, a assinatura “R.F.F.S.A.”, conforme sigla apareceria na lateral centrada, intercalada numa interrupção da faixa lateral contínua. E, pouco abaixo, o nome de referência adotado pela empresa para identificar suas coligadas e isto teve uma razão distributiva.

Ambas aconteciam em uma tipologia muito comum e de domínio simplificado de seu desenho. O chamado padrão de referência da tipologia conhecida por “Times New Roman”, uma tipologia clássica adotada por sua referência de simplicidade e legibilidade quase insuperáveis. Prova tal o seu uso até hoje e tamanho o conforto visual que oferece, é regiamente aplicada em textos e livros, a exemplo inclusive deste.

Como identificamos o surgimento da Rede reaparelhou suas ferrovias coligadas. Deste reaparelhamento, o material de tração adquirido foi distribuído para as unidades, seguindo-se dois critérios do ponto de vista da identificação: ordem numérica e nome da ferrovia. Talvez até mesmo certo contra-senso do que significava a formação da RFFSA, mas aqui identificamos aquele ponto de respeito ou manutenção do reconhecimento de que as coligadas eram mais do que subordinadas. Talvez coubesse uma percepção moderna de parceria.

Como sigla e não como “empresa” o nome “R.F.F.S.A.” foi inserido também a partir do formato de aplicação mais simples. Mais uma vez o pragmatismo tinha de estar presente, pois, o novo padrão não viria apenas dos equipamentos novos. Aos poucos os demais existentes passariam a ganhar a uniformidade e qualquer “burilamento artístico” seria apenas mais um elemento dificultador.

Assim, o material de tração passaria a ganhar a denominação de acordo com a ferrovia coligada. Conforme abaixo:


(Observação: as denomiações em azul referem-se a ferrovias cujo material com este padrão nos é desconhecido, por registros ou fotos).


EFMM – Estrada de Ferro Madeira Mamoré
R.F.F.S.A. Madeira-Mamoré
EFB - Estrada de Ferro Bragança
R.F.F.S.A. Bragança
EFSL – Estrada de Ferro São Luiz-Teresina
R.F.F.S.A. São Luiz – Teresina
EFCP – Estrada de Ferro Central do Piauí
R.F.F.S.A. Piauí
RVC – Rêde de Viação Cearense
R.F.F.S.A. Cearense
EFMS – Estrada de Ferro Mossoró – Souza
R.F.F.S.A. Mossoró Souza
EFSC – Estrada de Ferro Sampaio Corrêa
R.F.F.S.A. Sampaio Corrêa
RFN - Rêde Ferroviária do Nordeste
R.F.F.S.A. Nordeste
VFFLB – Viação Férrea Federal Leste Brasileiro
R.F.F.S.A. Leste
EFBM – Estrada de Ferro Bahia a Minas
R.F.F.S.A. Bahia a Minas
EFI - Estrada de Ferro Ilhéus
R.F.F.S.A. Ilhéus
EFT - Estrada de Ferro Tocantins
R.F.F.S.A. Tocantins
EFG – Estrada de Ferro Goiás
R.F.F.S.A. Goiás
EFL – Estrada de Ferro Leopoldina
R.F.F.S.A. Leopoldina
RMV – Rêde Mineira de Viação
R.F.F.S.A. Rêde Mineira
EFCB – Estrada de Ferro Central do Brasil
R.F.F.S.A. Central
EFSJ - Estrada de Ferro Santos a Jundiaí
R.F.F.S.A. Santos a Jundiaí
EFNOB – Estrada de Ferro Noroeste do Brasil
R.F.F.S.A. Noroeste

RVPSC – Rêde de Viação Paraná - Santa Catarina
R.F.F.S.A. Paraná-Santa Catarina
EFCP - Estrada de Ferro Central do Paraná*
R.F.F.S.A. Paraná
EFSC - Estrada de Ferro Santa Catarina
R.F.F.S.A. Santa Catarina
EFDTC – Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina
R.F.F.S.A. Tereza Cristina
VFRGS - Viação Férrea Rio Grande do Sul
R.F.F.S.A. Rio Grande do Sul



Locomotiva elétrica modelo Siemens B+B alemã, 1500 v.c.c. de 1934, originária da Rede Mineira de Viação – RMV. Talvez uma das primeiras locomotivas já existentes a receberem o novo padrão de pintura RFFSA. Em operação no trecho eletrificado entre Barra Mansa, RJ e Ribeirão Vermelho, MG. Note ainda a inscrição “Rêde Mineira”. A designação “Centro-Oeste” somente apareceria em 1965, com a fusão da Rede Mineira, Goiás e Bahia a Minas, promovida pela própria RFFSA. No vagão a marca RMV e sua classificação revelam a transição.
Acervo: Eduardo José de Jesus Coelho / Coleção: José Emílio Buzelin.






Locomotiva diesel-elétrica modelo General Motors - Electro Motive Division GM EMD SD18M, de 1961, 1.800 hp, número 3405, da série 3401 a 3445, adquirida pela RFFSA, para a Estrada de Ferro Central do Brasil, coligada “Central”. Fotografia de fábrica, em La Grange, Illinois (EUA). Conforme observamos, de 1957 a 1969 a nova empresa buscou o reaparelhamento de suas unidades, com investimentos elevados principalmente em material rodante e de tração. Com os modelos RSD12 Alco MLW) e GM EMD SD38M (3601 a 3645) e SD40M (3701 a 3704) (1967), as SD18M representaram as primeiras locomotivas de maior potência no parque de tração diesel vigente nas ferrovias coligadas. Ainda hoje estão em operação algumas tabelas.
Fotografia: General Motors.
Acervo: Fabio Dardes (in memoriam) / Coleção: José Emílio Buzelin





Locomotiva diesel-elétrica modelo Montreal Locomotive Works – MLW RSD12 número 3510, de 1962, da série 3501 a 3510, adquirida pela RFFSA para a Estrada de Ferro Central do Brasil, coligada “Central. A aquisição destas locomotivas contou com o aporte de investimento da CSN – Companhia Siderúrgica Nacional, podendo-se de certa forma considerá-las como originais CSN, embora não tenham jamais recebido algum padrão de pintura daquela siderúrgica. A proposta era reforçar a oferta de tração para o atendimento do transporte de minério entre as lavras mineiras no Ramal do Paraopeba e a Usina Pres. Vargas. Da mesma forma que as GE4400, foram destinadas também a serviços gerais e passageiros, encerrando sua vida útil nas linhas da “Santos a Jundiaí” no final dos anos 90. Na fotografia, de fábrica, ainda sobre truques falsos e a inscrição “RFFSA – Central”, mais os números, fugiam sutilmente do padrão definido, conforme os modelos desta fase.
Acervo: Memória do Trem - Eduardo José de Jesus Coelho / Coleção José Emílio Buzelin.