quarta-feira, dezembro 30, 2009

RFFSA - Volume II - Capítulo 7

R.F.F.S.A. - Fases Administrativas
Fase I - de 1957 a 1969 (Coligadas)
Capítulo 7
Modernização do Material Rodante - a Locomotiva diesel-hidráulica General Motors GMDH1-DH600 – um caso curioso


Em 02 de setembro de 1960, a General Motors oficializou na estação Julio Prestes, da Estrada de Ferro Sorocabana, em São Paulo, SP, a entrega de uma locomotiva diesel-hidráulica, de manobras, denominada GMDH1-DH600, destinada a realizar testes operacionais na Rede de Viação Paraná – Santa Catarina. A entrega foi feita à RFFSA, numa alusão a uma prática que se seguiria de forma comum entre as ferrovias e fabricantes dos Estados Unidos – o conceito de locomotivas de demonstração ou conhecidas por “demonstration” ou "demo".

Com truques em bitola de 1,00m (até o final de sua vida útil), o modelo (denominado como GMDH1-DH600, B-B, de 600 hp, 52 toneladas, equipadas com dois motores Detroit Diesel 6-110, built number A1713), esteve em testes na Estrada de Ferro Sorocabana (?) conforme registra a “Revista Refesa”, de novembro daquele ano, com uma interessante fotografia que flagra e comprova o fato.

Esta locomotiva foi oferecida para a avaliação técnica da RFFSA em razão do horizonte de necessidades e de modernização do parque de tração, que se iniciara definitivamente com o advento da aquisição de locomotivas diesel-elétricas aos principais fornecedores americanos (GE e GM).

Seu desenho peculiar, inovador e pouco ortodóxo, seguia uma linha desenvolvida pelo Desenhista Industrial da General Motors, Chuck Jordan, que atuara no desenvolvimento do emblemático (e não menos fracassado, injustamente) "Aerotrain", mas que despontava sugestivamente como o "trem do futuro", muito adequado à linguagem estética que se explorava naqueles dias, principalmente em razão inspiradora da corrida espacial que tomou conta de toda a década de 60.

A GMDH1 claramente segue o design do "Aerotrain", na versão de locomotivas tipo "switcher" (manobra). Mas, que se saiba, tanto o “Aerotrain” quanto a DH não “decolaram” no mercado, não havendo assim maior interesse por parte das ferrovias de um modo geral. Que se saiba apenas quatro unidades da GMDH1 foram disponibilizadas, sendo duas DH600 e duas DH800.



Lista das GMDH1 fabricadas:
(Fonte: Wikipedia)

A1597 - GMDD 1001 (protótipo) - preservada no Canadá;
A1713 - DH600 - RFFSA (Brasil);
A1811 - DH800 - ERCO - Electric Reduction Company;
A1812 - DH801 - (repassada para bitola de 1,67m - Paquistão).

Como “demonstradora”, o modelo GMDH1 foi oferecido pela GM à RFF "graciosamente", para testes, sem custos. Muito sugestiva é a citação de um determinado contrato que eximia a RFFSA de ter custos. E os termos da reportagem da Revista Refesa, de 1960, são claros: a locomotiva foi entregue para demonstração na RVPSC (...).



O “Aerotrain” (LWT12), em "sketch" (à direita) e com o seu criador, o desenhista industrial da General Motors, Chuck Jordan, em seu padrão DEMONSTRATION, apresentado em 1955. A locomotiva nada mais era do que uma GM EMD SW1200 “carenada” . A GMDH 1 segue o estilo. Acervo: José Emílio Buzelin.



A GMDH1-DH600, em rara fotografia em cores, na planta da GMDD (General Motors Diesel Division), em London plants, Ontário, Canadá, pouco antes de seguir para o Brasil, em 1960.
Acervo: José Emílio Buzelin







Excerto da Revista Refesa, de novembro de 1960. O local da foto sugere ser o pátio da estação de Julio Prestes, em razão da presença da rede aérea e, principalmente, da cabine de sinalização ao fundo, típicas daquele pátio. Acervo: José Emílio Buzelin





A GMDH1-DH600, em um dos conhecidos últimos registros fotográficos, evidenciando-a (também em cores) no padrão RFFSA. Note que a inscrição coligada da VFRGS aparece como "V.F.R.G.S"., ao invés de “Rio Grande do Sul”. Fotografia de Guido Motta, em 19??. Nunca mais foi vista, a partir de fins dos anos 70, pelo menos de conhecimento do autor e desta pesquisa. Está lançado o "historical help wanted!" Quem se habilita?
Acervo: Memória do Trem / Coleção José Emílio Buzelin.


O destino da nossa “GMDH” foi relativamente nebuloso. Os registros históricos até o presente momento encontrados não informam como foi esta operação entre a GM e a RFFSA, em relação a esta locomotiva.

Nossa modesta sugestão a este respeito é que esta locomotiva pode ter sido um "bônus", uma típica jogada de marketing comercial da General Motors com a RFFSA, em razão, principalmente de um fato inquestionável: tão logo assumiu o cenário ferroviário nacional, a Rede Ferroviária (entenda-se Brasil), promoveu um gigantesco reaparelhamento da tração diesel entre as suas coligadas, adquirindo dezenas de locomotivas GM, modelo G8 e G12, numa compra de "peso e medida", tipo "export", para bitola de 1,00 m. Conforme sabemos, 65% do "território ferroviário brasileiro" é constituído em bitola métrica. Ora, para um excelente cliente, porque não oferecer para um "test-drive" o mais novo desenvolvimento da GM?

Quiçá a RFFSA apreciasse esta locomotiva a ponto de continuar as generosas aquisições, mesmo porque ambos sabiam que, apesar da excelente e expressiva aquisição dos modelos G8 e G12, o processo de dieselização ainda estava longe de se completar e demandaria outros segmentos da tração, a exemplo do parque de manobras, cujo atendimento no processo foi um dos últimos - locomotivas a vapor conviveriam com as diesel, agora "relegadas" a serviços de manobras (as poucas restantes), até meados dos anos 70.

E também se tratava de um modelo claramente adaptável às "bitolas excêntricas" existentes em diversas ferrovias mundiais.

E quanto a aposta da GM, poderíamos dizer até que ela não foi totalmente perdida (com a aquisição mais adiante de outros modelos, pela RFFSA). Entretanto, o "mercado manobreiro" (de maior volume), obteve com a carteira da General Electric significativa dianteira. A condição de fornecimento de locomotivas fabricadas no Brasil pela GE através de sua bem estruturada planta industrial de Campinas, SP, revelou os versáteis modelos "U" ( "Universal"), definindo o mercado.

Mas o fato é que este “test-drive” da GMDH1-DH600 acabou durando alguns bons pares de anos. A locomotiva foi incorporada à RFFSA, na Viação Férrea Rio Grande do Sul, onde permaneceu até ser sucateada, em data desconhecida, mas ao que tudo indica, ocorreu no final dos anos 70.





Do acervo RFFSA, a GMDH1-DH600 6031 R.F.F.S.A - V.F.R.G.S. sugere um estágio de pré-sucateamento (data desconhecida nesta pesquisa).Coleção: José Emílio Buzelin.


Equipamentos ferroviários diesel-hidráulicos, em grande parte, não foram muitos felizes no Brasil. E, depois, não podemos esquecer que a GMDH1-DH600 não era exatamente uma locomotiva de ponta, de linha de grande produção no sentido pleno do conceito. Ela estava em grandes testes e, no final, a história sugere que ela não deu certo, seguindo o mesmo destino do "Aerotrain", ou seja, o desaparecimento.

A diferença é que países civilizados e que respeitam suas realizações tecnológicas (mesmo que não dêem muito certo), sabem o significado da preservação. Um exemplar deste curioso trem está mantido e um dos diversos e bem estruturados museus ferroviários americanos. E até está representado em excelente modelo de ferreomodelismo em escala HO, fabricado pela Con-Cor.

Já a "nossa" "DH" teve o destino típico que nossa cultura parece aplaudir de pé e admirar como pujança modernista: jogar fora o que "não presta mais".

O motivo pelo qual expresso interrogação início do texto, sobre o fato de que ela esteve em testes na Estrada de Ferro Sorocabana, evidencia um ponto desconhecido desta curiosa relação, uma vez que a EFS jamais foi integrada ao plantel da RFFSA. Fica a pergunta e o convite para quem se habilitar: por que motivo ela teria "rodado" na EFS? E se realmente isto aconteceu; para ser um erro de registro histórico, não custa!

Protótipo GMDH1-DH600 1001, em foto de fábrica. Atualmente está preservada no CSTM - Canada Science and Technology Museum. Acervo: José Emílio Buzelin




E a GMDH1-DH800, de 800 hp equipada com dois motores Detroi Diesel, série 71. Acervo: José Emílio Buzelin.