sexta-feira, janeiro 22, 2010

RFFSA - Volume V - Capítulo 22 - iii

R.F.F.S.A. - Fases Administrativas
Fase III - de 1976 a 1996
Capítulo 22

iii - Bibliotecas da RFFSA – Unidades de Documentação

Originárias das bibliotecas setoriais das estradas de ferro formadoras do sistema federal, o acervo bibliográfico da Rede Ferroviária Federal recebeu e formou por mais de 3 décadas uma das mais inestimáveis coleções especializadas do gênero.

Interligadas e integradas, as chamadas Unidades de Documentação estavam presentes em todas as superintendências e no edifício-sede da empresa, guardiãs não somente da vasta e rica produção técnica interna da própria RFFSA, como também da iconografia de referência histórica das estradas de ferro no Brasil, em todas as terminologias associadas possíveis tangíveis à tecnologia, operação, engenharia, construções, telecomunicações, transportes, gestão, economia, finanças, patrimônio e documentação governamental ( diários oficiais), dentre outros.

As UD, como eram chamadas, eram ligadas aos setores de documentação e informática (mais tarde), compostas por profissionais especializados em nível superior (quadro de biblioteconomia) e equipe ( arquivistas, técnicos em documentação, etc.).

As bibliotecas da Rede mantinham uma agenda complexa, uma vez que todo o cadastro documental corporativo passava necessariamente por seus registros.

Um exemplo: dada a natureza jurídica e corporativa da Rede, a existência dos chamados “Boletins de Serviço” representavam uma obrigação legal. Todos os funcionários, em qualquer nível de atuação, sob qualquer pretexto de mudanças internas ( cargos, salários, melhorias, dispensas, viagens, etc.) eram registrados nos “BS” e cabia às Unidades de Documentação a correta catalogação deste ativo de informação, disponível não somente aos próprios funcionários mas também ao grande público consulente.

As bibliotecas não eram restritas somente aos funcionários. Eram bem vindos todos aqueles que quisessem usufruir de seu acervo, à exceção de empréstimos, cujo expediente era uma prerrogativa exclusiva aos seus funcionários. Mas isto não impedia que seus frenquentadores não dispusessem de toda infraestrutura para suas pesquisas, estudos, consultas e anotações e até mesmo algumas cópias em xerografia, mas apenas de trechos ou pequenos dados. Porventura solicitados era possível de se obter.

De um modo geral, o que existia no acervo das superintendências, também era possível encontrar no acervo da biblioteca-maior da AG.

Periódicos ferroviários variados de diversas procedências, além de documentação técnica, literatura, enciclopédias, relatórios, desenhos, enfim, um acervo de peso e medida, na mesma condição, organizado e integrado.

Revista Refesa; Revista RAE; Revista Ferrovia; Estrada de Ferro; SPR; Correio dos Ferroviários; Almanaque da Central do Brasil; Rede Notícias; Anuários Jane´s Book; Anuários das Estradas de Ferro no Brasil ( coleção completa); Revista Ferroviária; Relatórios internos de diretoria,; todo o projeto da Ferrovia do Aço; do Tronco Sul; da eletrificação do Ramal de S. Paulo (jamais feito); estudo sobre trens de alta velocidade...; dicionários técnicos de engenharia e transportes; literatura brasileira; Revista IRJ; RE; ME; etc. etc. etc. etc. Esta precária lista porque composta de memória, é apenas uma diminuta parte de todo um gigantesco e riquíssimo acervo formado, mantido, renovado e catalogado por mais de um século...

As unidades de documentação, a seu tempo, seguiam a última palavra em tecnologia e metodologia da organização de seus ativos. Foi responsável pela implantação de um dos pioneiros projetos de microfilmagem dos ativos de documentação e de cadastro profissional dos funcionários, o que em termos equivalentes aos tempos atuais, seria como se todo o acervo existente documental ferroviário fosse catalogado, escaneado e disponibilizado para consulta via redes de acesso.

Graças ao competente trabalho de catalogação e metodologia arquivística das UDs, foi possível organizar o complexo banco de dados da empresa, substrato que foi para os grandes projetos de controle e estrutura interna, tais como o Sigo, cadastro de funcionários, memorial do jurídico, dentre outros.

Um universo de grande responsabilidade, mas que nem por este motivo, negligenciava ou negava o seu papel colaborativo com a sociedade que ali buscava matar a sede de seu conhecimento.

O primeiro contato que tive com estas unidades foi em Belo Horizonte, através da SR2.

No início dos anos 80, UD da SR2 encontrava-se ainda fora dos padrões que seriam exigidos pela nova estrutura organizacional da Rede que se firmava a partir da formação das superintendências regionais.

Mas esta foi uma realidade logo modificada. Modificada por um dos trabalhos mais sólidos e competentes neste segmento – trabalho este cujo registro não está somente na história, mas na vivência e convivência direta, cujo testemunho peço licença para registrar e partilhar.

Em 1980, meu pai ocupava uma coordenação executiva na área de economia junto à Secretaria de Estado do Planejamento de Minas Gerais – SEPLAN – MG, como funcionário efetivo daquele órgão.

Internamente, a SEPLAN mantinha um jornal dos funcionários e, em determinado momento, abriu espaço para a divulgação das atividades sociais familiares de seus colaboradores.

Fui contemplado com uma reportagem, cuja abordagem evidenciou o meu interesse desde a tenra idade, em ferrovias.

Diante deste cenário, um colega de meu pai que estava atuando no segmento de infraestrutura de transportes da SEPLAN, gentilmente admirado por meu "precoce" interesse em ferrovias, sugeriu-lhe que me apresentasse a biblioteca ferroviária existente no “prédio da RFFSA, na rua Sapucaí”, pois recentemente conhecera aquele espaço.

Ambos confessamos que desconhecíamos a existência do mesmo. E, de fato, por toda a sua existência, as bibliotecas se mantinham muito discretas. O acesso era livre a tantos quantos, mas desde que respeitadas algumas regras. Não se tratava de uma biblioteca de usufruto público, mas dada a natureza da RFFSA, tampouco era particular. E, deveras, partia-se do princípio que sua procura ocorria a partir de um ponto de interesse definido, o que normalmente acontecia entre pesquisadores e estudantes, os principais freqüentadores externos daquele espaço. A "curiosidade" também era bem vinda e vista mas o objetivo era bem outro...

Fascinado pela idéia, fui levado a conhecer aquela unidade pelas mãos de meu pai. Com apenas 13 anos de idade, vi, no exato momento quando lá entrei, onde realmente passaria não somente o resto de minhas férias escolares de janeiro de 1981, mas, como todas as demais de minha vida...

Em uma sala ao fundo, entre grandes estantes, repletas, recebeu-nos uma jovem senhora muito bonita, de largo sorriso, de larga simpatia, que acabara de ser admitida por concurso pela RFFSA. E já chegara com um desafio – dar ao espaço a organização que exigia a empresa naqueles dias.

Esta jovem senhora fez mais do que receber um "senhor com seu filho", quando poderia ali mesmo ter atendido ao que de início parecia ser apenas uma curiosidade passageira...

A sensibilidade de permitir, de abrir as portas, a um garoto, que por sua definição, “de calças curtas”, tonar-se-ia seu grande amigo, admirador e sobretudo grato, por todos – todos – os movimentos que me permitiram chegar até aqui em relação à ferrovia, foi a atitude que fez toda a diferença na vida de um jovem aprendiz ferroviário. Numa época em que o cenário sobre o qual nos debruçamos hoje pela internet, com frenética troca de dados, fotos e revelações ( e até livros em blogs...) era simplesmente inimaginável.

Refirmo-me à bibloteconomista, professora, pesquisadora e uma das mais dedicadas ferroviárias que conheci, a Sra. Mônica Queiroz D´Assumpção, gerente de documentação da SR-2 por mais de 25 anos...

Dela obtive mais do que o acesso às preciosidades existentes naquele verdadeiro manancial do conhecimento ferroviário que JAMAIS consegui esgotar. A biblioteca da SR2 era uma das mais completas, possuindo a coleção plena de revistas e periódicos também de outras ferrovias brasileiras.

Da apresentação com meu pai, seguiram-se outros dias (agora em companhia de minha mãe e depois, sozinho), os quais passava “devorando” aquele acervo com a sede insaciável da novidade histórica e do conhecimento.

Horas, dias, meses, anos... Anos que foram insuficientes, mas inestimavelmente aproveitados, diante da magnitude do acervo.

Na mesma dimensão da simpatia e atenção, disciplina era o principal verbete de atuação da profa. Monica naquele espaço. Por suas mãos, aprendi a metodologia da pesquisa, a forma correta de consultar, para que não ficasse apenas no exercício do folhear, embora o fizesse também, ávido por tudo que dizia respeito à Central do Brasil, não raras vezes deixando a coleção "353" ( catalografia) em trabalhosa desorganização...

Dali, daquele espaço, tive a inestimável oportunidade de conhecer, de estudar, de avaliar afinal de contas, a dimensão da ferrovia no Brasil,cujo conceito não pode e não está somente em sua “malha”... E cuja grandeza de conhecimento a ninguém cabe esgotar.

Fomos depois colegas na RFFSA. Por sua recomendação, atribuo também a oportunidade profissional. E também passamos juntos, assim como as demais unidades, o dissabor da dispensa e do desprezo que as biblotecas ( e museus) foram vítimas durante o processo de desestatização.

Naqueles dias de incerteza, lembrara-me de uma passagem de meu amigo João Bosco Setti. Engenheiro experiente, atuou no Iraque, pela Plasser & Theurer e ONU, na construção da principal ferrovia daquele país, em meados dos anos 70.

Ele dizia que por lá, todos tinham armas. Quantas quisessem, como quisessem. Sem restrições. Mas que máquinas de escrever, estas sim, não podiam estar nas mãos de qualquer um...Eram rigorosamente registradas pelos órgãos de estado...

Sim, alguém já disse que a caneta vence a espada.

Que exercício de mentalidade poderia estimar o fechamento dos setores de conhecimento, pesquisa e debate de uma empresa como a RFFSA, que não fosse aquele que representasse o temor de revelar a sua mais aguçada e indisfarçável ignorância?

Com o fechamento peremptório das unidades de documentação das regionais e com ele a demissão e dispensa de seus profissionais, estas bibliotecas ficaram por anos fechadas, fechadas e fechadas, sob a responsabilidade de guarda da RFFSA remanescente.

Sem pessoal para a sua manutenção, restava apenas a heróica resistência da bibioteconomista Anna Maria Campio Gomes, cujos predicados de tenacidade e firmeza mantiveram na AG a integridade daquele espaço, até a última das palavras, enquanto possível.

Com sua aposentadoria, a biblioteca ainda se manteve, mas sem os mesmos recursos materiais e profissionais que um dia sinalizaram um dos espaços mais modernos da empresa...

Em seu lugar, a dedicada e prestativa Vera Lúcia, técnica e funcionária de carreira da Rede, por anos daquele setor herdou, com dignidade e competência, o que restara de um inestimável ambiente, mas por pouco tempo, quando por força do processo de extinção da RFFSA, foi definitivamente fechado.

Não está no script deste trabalho de resgate memorial ajuizamentos de valor. Mas impossível se faz não refletir sobre tamanho retrocesso.

As unidades fecharam como estavam. Como nas ficcionais cenas de holocaustos nucleares, onde a vida desaparece, deixando tudo como está.

As bibliotecas da RFFSA, fechadas, não podem ser definidas de outra forma, com todo o respeito ao contraditório e ao debate.

Há poucos anos uma denúncia literalmente pequena (em estatura e em caráter) , oportunista e descabida, reclamou providências sobre o acervo existente na SR2, culminando em uma reportagem denunciatória no jornal "Estado de Minas", mostrando, em capa de reportagem uma foto das estantes entre insetos mortos.

O que a reportagem ignorou é que a poucas horas daquela abordagem sorrateira, o escritório havia realizado um trabalho de dedetização ( espaços abandonados, que eu saiba, não são detetizados) e a praxe para a eficácia da aplicação exigia 48 horas de confinamento, até que se pudesse entrar para a devida limpeza. Uma determinação do ministério público de Minas Gerais, diante de tal quadro, fez com que o acervo fosse transferido para a competência de setores de preservação patrimonial e artística do Estado, onde parece se encontrar sob catalogação de obras raras e de acesso desconhecido, pelo menos para mim.

Providência desejável, em qualquer tempo, seria a preservação desta biblioteca. Mas a maneira como realizada, expôs injustamente o esforço dos profissionais do escritório remanescente da RFFSA à inverdade do abandono. O acervo não era mais manuseado, mas resguardado. E tantos quantos precisassem, tinham acesso, desde que com um pouco de paciência para agendar a visita, destas, muitas das quais participei.

Não raras vezes, fui chamado pelo escritório em minha casa a dar assistência a pesquisadores que, solicitantes para acesso, obtinham-no sem maiores dificuldades. Mas desde que orientados e ou acompanhados por quem consideravam ser de confiança ou pudesse atender neste quesito.. Fui honrosamente merecedor desta prerrogativa, cuja ação voluntária me predispus, uma vez que já não fazia parte dos quadros da empresa.

Por força das circunstâncias óbvias, éramos literalmente trancados na sala de consulta da biblioteca pelo tempo solicitado, até que, ao término, por meio de um telefone interno, chamássemos o "carcereiro"... Brincadeira à parte, o aludido "abandono do acervo" que determinou o verdadeiro sequestro dos bens foi de atroz leviandade, uma vez que em nome da preservação e da integridade da coleção, o "trancamento", dentre outras ações, era uma providência tão necessária quanto constrangedora, diante da precariedade reinante de pessoal e de futuro que tomou conta da RFFSA - liquidada - na década de 2000 e, por fim, extinta, no governo do atual presidente da República.
No caso do acervo maior, da AG, hoje, que se saiba, fechado, movimentos existem para a recuperação daquele espaço e sobre os quais logro por breve sucesso. O tema encontra-se em voga e sob a atenção de mentes dignas.

Entrementes, graças às bibliotecas da RFFSA, a história e a tecnologia de nossas estradas de ferro não se perdeu. E nesta história tampouco o trabalho e o legado de profissionais dedicados e competentes, que em seu tempo, realizaram muito mais do que a sua obrigação.

Exemplo pessoal está na pessoa da profa. Monica, cuja amizade, há muito, cedeu lugar para uma relação de profunda estima e gratidão, com o reconhecimento de que, na vida, algumas vezes contamos com pessoas que fazem toda a diferença...

Meu abraço a você, estimada madrinha! E a certeza de que o legado de seu trabalho e dos demais profissionais e colegas seus setoriais que deram a sua vida pelo acervo da RFFSA não ficará em vão!

De qualquer maneira, este acervo não está perdido. Apenas repousa, como um tesouro inestimável, que, como qualquer outro na história, não deixou de ser vítima - em algum - tempo - do soterramento promovido pela ignorância intempestiva daqueles que lamentavelmente, através de atitudes como esta também guardam triste lugar na história ferroviária brasileira, cujas mais belas páginas não representam apenas as únicas páginas escritas, infelizmente...



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Meu fichário de consultas da biblioteca da RFFSA - SR2, que resgatei como prova de minha passagem por aquela unidade. Minhas consultas, meus empréstimos...

Eu não era funcionário... Mas fui merecedor de algo que para mim foi muito mais significativo, principalmente quando se tem 13 anos de idade: confiança! De 16/12/81 a 22/06/96.