quinta-feira, janeiro 21, 2010

RFFSA - Volume V - Capítulo 22 - ii

Fac-símile de um fôlder desenvolvido pela diretoria comercial da RFFSA nos anos 70 e produzido pelo Sevig. Ele guarda algumas curiosidades. Vemos a SD18 3408 ( atual 5008 - MRS, que recebeu da SPMT a placa comemorativa pelos seus 40 anos em 2001- e ainda está em operação), com um trem de cimento, exatamente na saída do pátio da Cimento Barroso, em Barbacena, MG, localizado no acesso da antiga linha entre Barbacena e Carandaí, pouco depois do início da Variante do Carandaí. O fôlder em nada está desatualizado. Acervo: José Emílio Buzelin.


R.F.F.S.A. - Fases Administrativas
Fase III - de 1976 a 1996
Capítulo 22



ii - O Sevig - Setor de Programação Visual e Gráfica

Desde os primeiros movimentos da RFFSA, e ainda mais em razão de sua natureza e surgimento, logo ficou claro que alguns expedientes não poderiam contar com ações terceirizadas. E, tampouco, naqueles dias isto era mais comum.

Um destes expedientes era a sua produção gráfica interna, dada a necessidade de uma infinidade de impressos, da papelaria ( envelopes, papéis de carta, memorandos, despachos, normas, regulamentos, etc) aos seus veículos de comunicação interna, representados pelas resoluções, portarias, funcionalismo e decisões corporativas, dentre outros.

E ainda o seu veículo social de divulgação empresarial, representado pela “Revista Refesa”, cuja realização foi um marco inestimável.

Dado o volume de movimentação e consumo destes ativos impressos, logo ficou claro que não seria possível depender de agentes externos, embora alguns setores conhecidos da sociedade ligados a este segmento, tenham prestado serviços à RFFSA, como por exemplo a Bloch Editores, no Rio de Janeiro, RJ.

Com a conclusão do edifício-sede, foi possível arregimentar mais adiante um espaço para a formação daquela que seria a “gráfica” da RFFSA e que mais tarde se transformaria em um setor de distinta importância: o Sevig.

Desde já convido o colega Elias Serra Filho, que me honra com sua presença dentre os seguidores deste blog, a prestigiar este modesto trabalho com seu relato, como também as correções que se fizerem necessárias, além da correta abordagem histórica.

Mas em linhas gerais, o fato é que o setor de programação visual e gráfica, localizado na chamada sobreloja do edifício da Administração Geral ( AG /RJ) foi responsável por mais de quatro décadas pela produção gráfica de toda a RFFSA, responsável não somente pela edição e produção da Revista Refesa, como também toda a papelaria oficial da empresa e sua divulgação em programação visual, a partir dos eventos, fossem internos ou externos, cujas peças gráficas representadas por fôlderes, panfletos, cartazes e banners, marcaram e registraram os passos históricos da empresa.

Formada por uma equipe seleta e dedicada de profissionais ligados à formação do desenho industrial, jornalismo e programação visual, o Sevig logo se destacara na empresa além de suas funções primordiais. Sua infraestrutura não deixava nada a dever às melhores gráficas do mercado e, não raro, era um setor primordial no acompanhamento de novas tecnologias do setor.

Os trabalhos de diagramação eram verdadeiras obras gráficas, com elevado senso estético e de bom gosto. Sem medo de errar, pode-se dizer que todos os temas foram tratados competentemente, dos técnicos às campanhas sociais; da divulgação de trabalhos internos à produção de livros. Obras sobre preservação, de autoria da equipe do Preserfe, bem como do engenheiro René Fernandes Schoppa, da diretoria comercial da Rede, são apenas alguns exemplos de inestimável valor.

Quando assumiu a gerência do setor, o desenhista industrial Elias Filho empreendeu enorme esforço e dedicação em torno do segmento e da área, formando uma equipe de peso e medida.

Um dos primeiros setores a receber a informática como ferramenta de desenvolvimento, quando computadores pessoais eram simplesmente inexistentes, o Sevig não dispensava, entretanto, os predicados artísticos de seus colaboradores diretos, mantendo uma equipe afinada com a dedicação em torno da imagem da RFFSA. As pranchetas não foram substituidas...

Mesmo com o advento da logomarca da Rede, em 1966 e uma definição informal de sua assinatura gráfica e corporativa, foi somente a partir do trabalho do Sevig que a RFFSA ganhou o seu Manual de Identidade Visual, cujas edições foram rigorosamente revisadas mais adiante pessoalmente pelo próprio Elias, buscando equilibrar e destacar aquilo que uma empresa tem de mais importante: sua marca.

A força do símbolo da RFFSA não podia ficar à mercê de aplicações indevidas, bem como a sua assinatura.



E a preocupação com a correta tipologia e sua aplicação corporativa era um exercício diário de disciplina intransigente, ainda mais que tais regras deveriam ser observadas por todas as unidades da Rede ( superintendências), o que por si só exigia um certo esforço.

O trabalho do Sevig e equipe não demorou a ganhar notabilidade e respeito por toda a empresa. As obrigação de se seguir o manual de identidade visual chegava a ser uma determinação de diretoria e da presidência. Efetivamente, o setor acabaria passando para a assessoria direta executiva-maior da empresa.

Em particular o ambiente do Sevig representava a RFFSA iconograficamente.

Os móveis, armários, pôsteres, objetos, enfim, uma parcela importante da história da ferrovia e da Rede encontrava naquele setor um santuário digno.

Medalhas, comendas, troféus, recebidos ou criados pela Rede, louçaria e até bustos tinham naquele local sua guarda garantida, tanto pelo que representavam, como pelo carinho e estima que o desenhista Elias dedicava àquele local, assim como sua equipe. Respeito era a essência que melhor distinguia aquele setor em relação à RFFSA.

Com o processo de desestatização e o prognóstico que levaria à RFFSA a um desnecessário ostracismo, assim como os museus e bibliotecas setoriais da RFFSA, o Sevig também passara a experimentar seus monentos de incerteza. Sobre esta passagem, está aberto o convite para que o próprio Elias Filho, caso queira, nos conte. Porque ele permaneceu até se aposentar, no final dos anos 90, período coincidente com as grandes mudanças que se avizinhariam.

Curiosamente, em meados dos anos 70, o governo determinou que publicações do gênero como a "Revista Refesa" em suas empresas estatais estavam vetadas, em função dos custos. Desta forma a "Revista Refesa", por exemplo, foi apenas até meados de 1977.

Mas outros veículos internos foram mantidos, a exemplo do excelente “Rede Notícias” que também era produzido a partir do Sevig.

O jornal “Rede Notícias” desenvolvido pela área de comunicação empresarial, foi publicado até o ano de 1996, quando foi dado o início do processo de desestatização.

Incertezas e ansiedades faziam parte do cenário daqueles dias. Mas alguns profissionais confiavam que era necessário criar um ambiente positivo e que remetesse a uma ação executiva de crescimento e modernidade.

Pelo menos esta é a modesta interpretação deste autor, ao citar as últimas páginas do talvez último “Rede Notícias”, quando a reportagem final deu publicidade a uma iniciativa de grande simpatia: o Sevig promovera o chamado “Café do Elias”. Por sua definição, um breakfast executivo, com a presença dos diretores da empresa em momento informal de convívio com os ses colaboradores.

Algo talvez visto com veladas críticas naquele momento, principalmente dentre os que costumam confundir iniciativas de valor com bajulação. Mas revelador do que aconteceria mais adiante, como ferramenta de ação das empresas modernas, que entendem ser este um instrumento de integração corporativa, onde questões são tratadas com relevância.

Que me consta, foi o primeiro e único “café” na RFFSA deste gênero direto.



O Sevig continuou a existir, reduzindo-se aos poucos.Talvez hoje ( desconheço), resumido a uma sala fechada. Seus profissionais remanescentes foram agregados ao setor de comunicação empresarial, sob a coordenação da distinta jornalista Marluce, hoje, na assessoria de gabinete da inventariança.

Mas o que talvez o desenhista Elias não saiba, é que o seu “café” passou a fazer parte das ações executivas das principais concessionárias que sucederiam o cenário RFFSA, a exemplo da MRS Logística, que por uma década, promoveu nada mais nada menos do que o “Café com o Presidente”, cujo encontro dedicava-se aos mesmos objetivos. Quiçá outrora “incompreendida”, a iniciativa do Sevig seria tomada, no futuro, pelas empresas concessionárias como ferramenta de produção, estímulo e integração corporativa.

Mas é assim mesmo. Na ferrovia não são raros aqueles que estão à frente de seu tempo e certamente o Sevig teve esta assinatura, através de sua equipe, cujos predicados artísticos estavam, certamente, além dos méritos profissionais.

Não deixo de externar um posicionamento de cunho pessoal, pois o trabalho do desenhista Elias foi, em grande parte, inspirador em minha formação. Como ferroviário e como desenhista industrial, pela UEMG.

Uma pequena lenda industrial, diz que a “Coca-Cola”, cansada do assédio sobre sua emblemática fórmula, revelou que o seu segredo, afinal, estaria disponível para quem bem quisesse saber...

Mas indagada sobre sua marca, foi taxativa: esta não está disponível, pois representa o seu bem mais precioso. Mais precioso do que seu xarope. Uma mistura química, por fim, qualquer um pode obter...; mas a consolidação de uma marca, é para sempre!

A marca de uma empresa é um bem inestimável. Sua imagem e sua reputação estão vinculadas a este contexto. A Rede teve seus grandes momentos como também seus grandes problemas. Mas inegavelmente: sua assinatura e logomarca, ainda são identificados, assim como serão ao longo da história ferroviária brasileira. E houve quem soubesse honrá-la, com muito respeito.