domingo, janeiro 24, 2010

RFFSA - Volume VI - Capítulo 24

R.F.F.S.A. - Fases Administrativas
Fase III - de 1976 a 1996
Capítulo 24
A nova pintura da RFFSA - a chamada segunda (e última) fase de pintura da Rede Ferroviária Federal S.A.


Por ocasião do cinqüentenário da tração diesel da Estrada de Ferro Central do Brasil, a RFFSA promoveu um concurso para definir um novo padrão de pintura para as suas locomotivas. O novo padrão também determinaria uma nova “linhagem” de vagões e carros, no que tange ao “paint-scheme”.

Foi uma iniciativa muito bem conduzida, resultando em uma festa ferroviária de elevado significado. O cinqüentenário da tração na Central não era apenas um referencial distinto àquela formadora histórica da Rede. Tratava-se do reconhecimento sobre a iniciativa que deu forma e origem à implantação da tração diesel elétrica em nossas ferrovias, que substituiriam gradativamente a tração a vapor.

O evento, ocorrido em dezembro de 1993, contou com o apoio de vários setores da RFFSA e também de entidades de classe e até mesmo de clientes, que, numa iniciativa pouco comum à época prestigiaram o evento com recursos.

Da RFFSA, podemos citar a participação da Gerência de Comunicação Social, que através da jornalista e assessora de Comunicação da RFFSA AG, a Sra.Saiçu Amaral Bravo, recebeu a participação dos interessados em concorrer com a escolha do novo padrão de pintura. O concurso, de amplo espectro, estava aberto a todos tantos quantos quisessem, independentemente de formação ou grau de escolaridade, funcionários ou não da empresa. A única exigência era que uma prancha pré-definida fosse adotada para a representação do desenho. Curiosamente, o desenho universal representava o modelo Villares GM GT26CUM2 (modelo em bitola métrica, da SR5, que seria o primeiro a receber o padrão vencedor).

Naqueles dias eu ainda me encontrava nos primeiros anos do curso de deseneho industrial pela Universidade do Estado de Minas Gerais, mas mesmo assim resolvir "arriscar um palpite". Fiz uma prancha definindo um padrão de pintura muito próximo do que hoje a ALL – América Latina Logística adota. Peço a boa vontade do leitor em acreditar, pois tudo que tenho é o empenho de minha palavra.

Naqueles dias cópias coloridas eram mais caras do que uma viagem RJ/BH( exageros...), ainda mais em cópias A3; as pranchas eram obrigatoriamente entregues ou enviadas originais aos cuidados diretos do Setor de Comunicação, em envelopes lacrados e com pseudônimo. Uma banca de jurados, coordenada pelo desenhista Elias Filho e equipe do Sevig, composta também por integrantes da Comunicação, Engenharia e do Preserfe, dentre outros, fariam a escolha vencedora.

Mas a festa não ficou apenas nesta interessante iniciativa. Com o apoio da então recém estabelecida AENFER – Associação de Engenheiros Ferroviários, com sede no Rio de Janeiro, RJ, bem como de clientes e patrocinadores da RFFSA, foi lançado o primeiro livro de autoria de João Bosco Setti e Eduardo José de Jesus Coelho, o lendário “A Era Diesel na EFCB”, apresentando a Sociedade de Pesquisa para Memória do Trem.

João Bosco Setti (esq.), Eduardo José de Jesus Coelho (centro) e José Emílio de Castro H. Buzelin (dir.) fundadores da Sociedade de Pesquisa para Memória do Trem, durante o lançamento do livro "A Era Diesel na EFCB" em dezembro de 1993, na RFFSA AG - Rio de Janeiro, RJ. Coleção particular do autor.

O livro contou com o apoio da MBR, Corema ( leia-se General Motors), Cimento Ciminas, CSN e da própria Aenfer, que editou o livro.

Mesmo com uma tiragem razoavelmente alta, o livro logo esgotou e hoje é disputado a tapas pela internet, em leilões ou vendas entre colecionadores, geralmente atingindo excelente cotação.

O evento aconteceu no dia 06 de dezembro de 1993, no espaço cultural da RFFSA, no 12º andar do prédio da AG, no Rio de Janeiro, praticamente pelo dia todo. Durante o dia, uma exposição interessante ocupou uma das plataformas da estação D. Pedro II, onde foram posicionados um exemplar de cada uma das locomotivas pioneiras, dentre elas a Alco S1 3003, que recebeu a pintura original fase I da EFCB, de 1943, com o inconfundível "cherry-red" e o número 3001, já que a titular do número pioneiro encontrava-se semi-desmontada nas oficinas do Engenho de Dentro. Estavam presentes ainda a Alco FA1 3201, uma Alco RS3, a Baldwin AS616 3380, além da própria S1. As locomotivas não estavam exatamente trajadas da forma que se desejaria para uma festa daquele estirpe, mas a intenção foi excelente. Hoje nem isso acontece...


A Alco S1, em primeiro plano e demais pioneiras, mais inestimáveis equipamentos, como os carros do Cruzeiro do Sul, do Série 100, etc., salvaguardada hoje no pátio da estação Barão de Mauá, graças à heróica, responsável, providencial, distinta e digna iniciativa do engenheiro Helio Suêvo Rodriguez. Fotografia de Eliezer Poubel Magliano. 14/08/2004. Acervo: José Emílio Buzelin.


A presença de Dr. Aldo Marsili era um referencial para todos nós. Homem íntegro, foi um exemplo de vida e de conduta.

Em sua homenagem, fiz-lhe um modestíssimo poema, através do qual busquei enaltecer a figura deste grande ferroviário.

Exposto incompleto e modestamente posicionado num canto (bem escondido) da exposição fotográfica, que se seguiu no grande salão durante o evento e de preferência virado para os fundos e a parede, por motivos que agora me fogem lembrar, o arrazoado trazia os seguintes versos:



“O Jequitibá da Central

Chegou o dia,
Em que uma semente fora plantada.
E a ela destinada,
Florescer em terras novas!

Com a semente, muitos sonhos...
Que a tornaram realidade!
Como tal, esta é a verdade,
Que hoje colhemos, hoje apreciamos.

Cresceu imperial e incólume,
Da primavera mais festiva,
Ao inverno mais rigoroso,
Fez-se árvore do tempo.

De sua vultosa envergadura,
Madeira forte, rija postura.
Lembra-nos, afinal,

quem a plantou:

Fora um homem,
Que tantos sonhos cultivou,
que tanta realidade construiu,
E que o tempo perseverou".


Houve uma época que além da presunção de escritor, aventurava-me nas inspirações poéticas. Felizmente os poetas podem descansar em paz...

O pretensioso poema – embora feito de coração – refere-se ao Jequitibá plantado pelo Dr. Aldo nos anos 50, quando foi inaugurada a nova oficina de locomoção do Horto Florestal em Belo Horizonte, MG, por suas próprias mãos.

Ao buscar compará-lo com os predicados típicos desta espécie de árvore cujo viço revela grandiosidade, força e resistência contra as intempéries, recebi dele, pessoalmente, no dia da festa um emocionado abraço, dentre lágrimas... Bom, ele leu, se sentiu homenageado, me agradeceu. E é o que importa. No mais... Valem apenas as boas memórias.

Entre um excelente buffet, uma festa de envergadura, pessoas amigas, a preservação em peso, toda a “majestade RFFSA” presente, o melhor estava por vir: a divulgação do ganhador do desenho que representaria a nova identidade visual da RFFSA.

Embora representante do terceiro lugar na premiação, o modelo desenvolvido pelo concorrente Paulo Henrique Cavalieri, de Juiz de Fora, MG, foi o escolhido para o novo padrão e que passaríamos a conhecer como o padrão Fase II da RFFSA, “cinza”. O vencendor “que ganhou mas não levou” foi o arquiteto Eike Pereira de Souza, da empresa Auto Grafics Planejamento Gráfico, recebendo o prêmio em dinheiro de duzentos mil cruzeiros, de 1993 ( em breve colocarei as imagens a disposição).

Assim terminava o ano de 1993 e a RFFSA já ingressara nos estudos que a levariam ao processo de desestatização.



Fotografias de Hugo Caramuru, do novo padrão RFFSA, que seria adotado até os últimos dias operacionais da empresa, em 1996. Em uma U20C; nos carros de aço carbono formadores do "Trem Xangai" ( Juiz de Fora / Matias Barbosa); nas automotrizes do "Expresso Mantiqueira" ( Juiz de Fora / Santos Dumont) e ao lado do nosso amigo e estimado entusiasta ferroviário José Francisco Pavelec. O padrão dos carros e automotrizes, foi desenvolvido pelo SEVIG. Local das fotos: Juiz de Fora, MG. Acervo: José Emílio Buzelin.







As fotografias abaixo reproduzem um esforço da RFFSA em aliar modernidade e iniciativa de marketing do setor comercial da SR3 com a bênção da AG. O processo de desestatização não foi acatado tão "passivamente" como se pode pensar. A RFFSA buscou mostrar alternativas a este processo e que poderia vencer seus problemas sistêmicos já instalados, tornando-se eficiente. O vagão-cegonha modificado em protótipo, de um PAR (antigo LCD), foi preparado para atender à demanda da futura fábrica da Mercedes-Benz que seria instalada em Juiz de Fora, MG. A fábrica foi efetivamente construída, inclusive com a exigência da matriz alemã de que a planta deveria se localizar com acesso à ferrovia. Visando atraír a boa imagem junto à MB, este protótipo - que jamais levou um veículo sequer, foi preparado, exibindo em seu "paint-scheme" a parceria RFFSA / Mercedes-Benz. Com a reprodução em desenho do automóvel que seria fabricado no Brasil na nova planta, o "Classe A" tornara-se um símbolo do fim definitivo de "nossas carroças" (referência do presdidente Collor aos produtos de nossa indústria automobilística), como ,de fato, ocorreu durante o final da década de 90. O vagão, agora fechado para promover maior proteção aos veículos , seguia o novo padrão da RFFSA em sua pintura. Nesta fotografia de Felipe Sanchez ( Cruzeiro?) vemos o curioso exemplar já bastante combalido pelo tempo. Embora a RFFSA tenha em seu portifólio histórico o transporte de automóveis por anos seguidos e com sucesso (anos 70), este transporte não foi retomado, mesmo em tempos de concessionamento. Hoje ele se encontra encostado em algum pátio da Linha do Centro ou Ramal de São Paulo, como ativo não-operacional pertencente à RFFSA, definhando como tantos outros na mesma condição, até que se resolva que providência será tomada com relação a este vasto patrimônio público. Caso alguém tenha uma foto melhor ( vagão mais novo) será muito bem vinda...Acervo Rodrigo Jota Cunha. Coleção: José Emílio Buzelin.